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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Eu sei mas não devia

Eu sei mas não devia
por Marina Colassanti


Eu sei que a gente se acostuma.
Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma à poluição.
Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias de água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se o trabalho está duro a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que gasta de tanto se acostumar, e se perde de si mesma.

3 comentários:

Marly disse...

adoro essa mulher de sensibilidade que temos em nossa literatura!

Klaus disse...

Muito simpática essa poesia, :-)
Eu me esforco para manter a mente aberta e me manter aberto e interessando na natureza ao meu redor mesmo em cidades pois acredito que o concreto e mesmo sabor artificial é natural pois foi feito pelo homem e o homem é parte da natureza. Meu interesse em entender e algumas vezes em mudar a realidade ao meu redor me impede de realmente sentir e compreender o texto acima.

Olavo Ludwig disse...

Esse texto, eu coloquei aqui pois uma vez o li numa formatura em que fui paraninfo, e esses dias um aluno me perguntou se eu ainda o tinha.

E infelizmente a gente se acostuma mesmo, com uma porção de porcarias que a vida nos impõe, mas não devíamos.

Klaus, eu já te disse, tu é um iluminado, eu também sempre pensei muito a respeito de tudo, e também acredito que o que o homem faz parte da natureza, e cada vez mais mostramos o nosso pior e algumas vezes o nosso melhor. Eu torço muito para tu nunca entenderes como as pessoas podem se acostumar com algumas coisas, eu mesmo vivo indignado com isso, mas acaba fazendo mal para saúde!!!!

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