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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Brasil entra na campanha 10²³: homeopatia é feita de nada

Eu fico consternado em constatar que, em pleno século XXI, na era dos computadores, das células-tronco, da medicina nuclear e de todas as demais conquistas que o pensamento científico nos trouxe, pessoas com formação técnica especializada, como alguns médicos, ainda acreditem em acupuntura e homeopatia. O efeito de ambos não passa de um placebo. Este fato tem sido comprovado em todos os testes clínicos controlados desenvolvidos nos melhores e mais prestigiados centros de pesquisa médica dos países civilizados. A bibliografia é farta para quem se dispuser a pesquisá-la. A homeopatia, assim como outras pseudo-especialidades médicas, só cura as “doenças da alma”, que podem, de fato, ter reflexos sobre o corpo. Nada que uma boa conversa e uma mão amiga no ombro não resolvam. Os homeopatas brasileiros sabem disso. Mas não vão abrir mão de um negócio rentável, certo?


Brasil entra na campanha 10²³: homeopatia é feita de nada

Você talvez já tenha notado que anualmente, em alguns países do mundo, grupos de pessoas se dirigem a locais públicos e se submetem voluntariamente a "overdoses" de homeopatia -- emborcando de uma vez o conteúdo de frascos inteiros de medicamentos homeopáticos. Pois bem: neste ano, quem quiser brincar no Brasil também vai poder. O website brasileiro do movimento 10²³: Homeopatia é Feita de Nada entrou oficialmente no ar neste domingo, e a manifestação está marcada para o fim de semana de 5 e 6 de fevereiro. A "overdose" coletiva deve ocorrer às 10h23 da manhã, claro.

http://4.bp.blogspot.com/_pr0Ge5NxS-Y/TTyzWXCqHYI/AAAAAAAAALo/KWaIoNTvXsg/s1600/1023-Campaign-s-300x204.jpg


O objetivo da campanha é conscientizar as pessoas de que a esmagadora maioria das fórmulas homeopáticas não passa de puro veículo -- água, álcool ou, no caso das pílulas, lactose -- sem absolutamente nenhuma molécula de princípio ativo. Esse fato deriva diretamente da "Lei dos Infinitesimais" inventada (os homeopatas preferem "descoberta") pelo criador da homeopatia, Samuel Hahnemann. Segundo esse princípio, quanto mais diluída uma substância, mais potente se torna o preparado. Hahnemann acreditava que soluções extremamente diluídas de substâncias capazes de causar os sintomas de uma determinada doença tinham o poder de combater a doença. (Se a ideia lhe parece um pouco com a psicologia do feiticeiro vodu, para quem machucar um bonequinho que simboliza o inimigo machuca o inimigo -- com a substância causadora do sintoma no lugar do boneco e a doença, no lugar do inimigo -- não se trata de coincidência: ambos são exemplos de "magia simpática", onde uma semelhança, real ou simbólica, entre duas entidades é vista como sinal de que uma é capaz de afetar a outra. É um tipo de pensamento muito comum, que esta na base de toneladas de superstições.)

Em defesa de Hahnemann, é preciso dizer que quando ele teve sua iluminação, a existência de átomos e moléculas ainda não havia sido comprovada, e a doutrina do vitalismo -- a ideia de que as coisas, principalmente seres vivos, têm essências que podem estar presentes mesmo na ausência de qualquer vestígio material -- ainda era cientificamente respeitável. Hoje em dia, no entanto, sabemos que as substâncias da natureza são feitas de moléculas, e que a partir de um certo nível de diluição, simplesmente não há como restar nenhuma molécula de material em meio ao volume de solvente. Já o vitalismo virou nota de rodapé nos livros de história da ciência, junto com o geocentrismo e outras ideias que pareciam boas mas acabaram não funcionando. Se você fez ensino médio (ou colegial ou segundo grau, que é como esse negócio se chamava na minha época), é possível que se lembre de que a concentração de soluções costuma ser medida em moles por litro. Um litro é isso mesmo, um litro, e um mol é uma quantidade de moléculas: 6,022x10²³, para ser exato. (Essa notação representa o número 6.022 seguido de 20 zeros).

É do 10²³ do mol que vem o nome da campanha, por falar nisso.

Diluições homeopáticas costumam ser medidas numa escala denotada pelo numeral romano "C", de 100, onde cada ponto a mais -- 1C, 2C, 3C, etc. -- representa uma redução da concentração anterior a 1%. Assim, por exemplo, 5C tem 1% da concentração de 4C, que por sua vez já era apenas 1% de 3C. Uma diluição bastante comum é 30C. O problema é que, começando com uma solução 1mol/litro, ou 6,022x10²³ moléculas, assim que atingimos uma diluição de 12C, o número de moléculas por litro cai a 0,6 -- menos de uma! -- e continua a cair cada vez mais nas diluições subsequentes. É por isso que a campanha diz que "homeopatia é feita de nada" e que a "overdose" é segura (desde que o remédio usado tenha uma diluição superior a 12C e o manifestante não sofra de nenhum problema de saúde que possa ser agravado pela lacotse, é claro). Simplesmente, não há nada ali.

A reação de muita gente a esses fatos é dizer, "Ok, homeopatia não deveria funcionar, porque não contém nenhuma molécula ativa, mas o fato é que funciona. certo?". O objetivo da manifestação é desmistificar isso. Se funcionasse, as overdoses deveriam causar algum efeito. Mas não causam. O sucesso da homeopatia é um fenômeno cultural, não médico-biológico. O paciente reage à atenção especial dedicada pelo homeopata, ao ritual do tratamento, às expectativas positivas criadas, não à droga. Isso é medicina à moda antiga: como escreveu Voltaire no século XVIII -- e Voltaire morreu em 1779, mesmo ano em que Hahnemann inventou a homeopatia --, o papel do médico na época limitava-se a manter o doente confortável enquanto a natureza tratava de curá-lo. Em comparação com outras distrações médicas da época, como sangrias e purgantes à base de metais pesados, como mércúrio, a homeopatia causava surpreendentemente pouco dano. Com exceção de algumas intervenções cirúrgicas e umas poucas drogas realmente eficazes, essa função primordial da medicina só mudou, de fato, a partir da descoberta dos antibióticos, no século passado. No Brasil, onde os homeopatas também são médicos, a maioria é responsável o suficiente para notar quando o tratamento à moda século XVIII não é suficiente e a ciência moderna precisa intervir. Outras nações não têm a mesma sorte, e não são raros os relatos vindos da Europa, EUA, Ásia e da Oceania de "morte por homeopatia".


Funcionou comigo!


duvida razoavel Funcionou comigo!

Apesar de inúmeros estudos controlados em larga escala demonstrarem que tratamentos alternativos como homeopatia, acupuntura e afins não diferem de tratamentos com placebo, com pílulas com açúcar puro ou palitos de dente, os que têm fé em tais tratamentos sempre respondem como “funcionou comigo!“. E pode-se compreendê-los: em quem confiar, em estudos complicados realizados por vezes a milhares de quilômetros de distância com pessoas que você nunca viu, por pessoas que também não conhece, ou em sua própria experiência?

O quadrinho acima, do ótimo Pulga Snob de Andrés Diplotti, ilustra como confiar na própria experiência pode não ser a melhor resposta.


6 comentários:

Helton Moraes disse...

Sou médico e concordo com boa parte do artigo, em especial que a homeopatia tem fundamentos muito questionáveis (pra não dizer nulos), mas discordo da postura de achar que o cientificismo, ou a verdade científica, é melhor por definição.

Durante minha atividade profissional não demorou muito para perceber duas coisas:
- O ser humano e seus problemas são quase infinitamente complexos;
- É evidente a limitação drástica da medicina, em especial da medicina "moderna", em conseguir algum efeito positivo para uma enorme e muito prevalente gama de problemas REAIS que um número muito grande de pessoas têm, e que impactam muito em sua qualidade de saúde.

A ciência, por definição simplificadora e fragmentadora, simplesmente finge não existir os aspectos humanos mais marcantes de individualidade, auto-influência, etc.

Como disse o trecho:
"O sucesso da homeopatia é um fenômeno cultural, não médico-biológico. O paciente reage à atenção especial dedicada pelo homeopata, ao ritual do tratamento, às expectativas positivas criadas, não à droga. Isso é medicina à moda antiga".

Não é à toa que as terapias não-científicas (sejam elas tradicionais ou francamente charlatanescas) proliferam: A Medicina Baseada em Evidência conseguiu lavar o cérebro da classe médica, convencendo-os de que SOMENTE A DROGA é suficiente para curar. Ou seja, confortavelmente eliminou-se a necessidade de criar expectativas positivas, de dedicar atenção especial, de ouvir, de apoiar...

Homeopatia pode até não funcionar, mas e a Medicina Cartesiana, funciona sempre? Serão os "males da alma" somente uma frescura invisível?

Olavo Ludwig disse...

Helton, excelente comentário, valeu mesmo pela contribuição, resumiu com clareza a situação que vivemos.
Eu sou sempre um defensor da ciência, mas acho sempre ótimo quando alguém aponta uma falha de forma clara e inteligente. Existem bom médicos, científicos quanto a droga, mas humanos no tratamento geral, são minoria infelizmente.

Marly disse...

Uma pena, pois pela homeopatia gastasse bem menos e a consulta, mesmo que seja pelo SUS dá uma atenção maior ao paciente. Nelaéle é viasto como um todo, tanto o lado emocional, como o lado físico, etc.
Fui usuária por longa data e utilizei por muito tempo a homeopatia para tratar doenças infantis quando meu filho era menor!
Quando nos mudamos de Sampa para cá, inclusive descobri a homeopatia veterinária e levava minha Akita para que ela se adaptasse melhor ao fato de termos nos mudado para outra vida aqui no sullllll!Ela durou 14 anos, morreu diabética e nunca lhe dei doces.

Daniel Borba disse...

Oi Olavo, interessante esse artigo... Minha avó era adepta ferrenha da homeopatia e lembro que minha mãe me levou algumas vezes a homeopatas quando eu era criança. Eu, particularmente, prefiro tomar aspirina quando sinto dor de cabeça...hehe...Abraço!

Italo Mammini Filho disse...

Oi, Olavo, tudo bem?
Sou professor de Química no Ensino Médio e Pré-Vestibulares. Muito interessante seu artigo sobre a homeopatia. Saiu uma matéria na Folha de São Paulo sobre a manifestação e, pesquisando um pouco mais, achei seu texto mais informativo. Você me permite usá-lo na preparação de uma aula? Naturalmente citarei a fonte.
Um abraço!

Olavo Ludwig disse...

Olá Italo, A postagem é cópia de dois artigos de sites diferentes, estão citado. Por mim acho ótimo usar, acredito que a informação está na internet é para ser divulgada para todos.

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